Boletín IFP
| Especial N°2 | LSJ 11 - Oaxaca |
Junio 2006
 

Cotidiano escolar e linguagem: algumas questões, por Osvaldo Piedade Pereira da Silva

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Brasileiro, pedagogo e concluinte do Programa de Pós-graduação em Educação em nível de Mestrado na Universidade de Sorocaba. Há mais de uma década venho dedicando-me na região norte do Brasil ao trabalho comunitário com jovens e adultos excluídos e marginalizados socialmente(1).

O presente texto pretende ser uma contribuição para aproximação dos estudos de educação-lingüística e os estudos do cotidiano de base marxista. Sua gênese está nas reflexões surgidas ao longo do percurso investigação iniciada acerca do que denominada violência lingüística. Destaque-se que a elaboração teórica e as definições de categorias analíticas, constante no presente texto, certamente, deixam evidente muitas das duvidas de que seu autor é vítima. Vale ressalvar ainda, que o mesmo são impressões iniciais que brotaram do entrelaçamento de teorias que servem de suporte para estudos que estamos desenvolvendo. De maneira, que não se tem a intenção neste breve texto de apresentar formulações acabadas, tampouco, posicionamentos isentos de críticas ou contribuições. As criticas e sugestões serão bem-vindas, pois contribuirão para que possamos superar certas limitações teóricas que muitas vezes nos impede de ultrapassado o epitélio de questões relevância para os estudos de educação em geral.

Assumindo esse desafio, optamos no presente texto por formular duas questões, cuja intenção consiste em destacar – embora de maneira parcial e dentro dos limites teóricos que nos balizam – aspectos que carecem de atenção dentro do conjunto de estudos do cotidiano. Partindo da hipótese de que nos estudos sobre o cotidiano, de forma especial, aqueles restritos ao cotidiano escolar, o não reconhecimento da variação lingüística como elemento inalienável do gênero humano contribui negativamente na construção e viabilização de projetos pedagógicos histórico-social através do qual se possa superar a raia do ser social em-si para o ser social para-si.

Como já anunciamos, duas questões foram formuladas com a intenção de que sirvam de fio condutor à reflexão proposta.

Portanto, são elas:

- Qual o lugar da linguagem na teoria do cotidiano?
- Quais os limites de um projeto pedagógico histórico-social empenhado na emancipação dos trabalhadores, que não considera a variação lingüística (aspecto inerente à individualidade do homem singular) em sua formulação?

De imediato, confessamos que não termos respostas rigorosamente fundamentadas para essas questões, o que de certo temos são mais dúvidas e alguns poucos delírios iniciais que gostaríamos de expressa-los, sem a menor intenção de que sejam tomados como concepções acabadas e imunes a críticas ou isentas de futuras reformulações.

Para evitar divagações desnecessárias, organizamos a presente reflexão em dois momentos, onde tentaremos conectar os questionamentos norteadores que anunciamos acima à proposta teórica de Agnes Heller sobre cotidiano e a proposta pedagógica de caráter histórico-social defendida pelo professor Newton Duarte. Destaque-se, que a intenção que nos move é simplesmente de poder trazer para o debate dos estudos sobre cotidiano e educação em geral, algumas contribuições dos estudos de educação-lingüística, o que significa que em hipótese alguma se pretende negar as valiosas contribuições dos intelectuais acima citados.

Para inicio de conversa: Qual o lugar da linguagem no cotidiano?

“A linguagem
na ponta da língua,
tão fácil de falar
o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática, esquipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, seqüestram-me.
e de entender.
A linguagem
na superfície estrelada das letras,
sabe lá o que quer dizer?
Professor Carlos Góis, ele é quem sabe
e vai desmatando
Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
e língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.
  O português são dois; o outro, mistério(2)

Não existe homem se cotidiano e nem cotidiano sem homens. Tal verdade nos obriga a pensarmos o quão estranho seria considerar a cotidiano sem pontuar uma de suas principais características, isto é, a linguagem(3). Contudo, mais estranho seria proceder investigação do ambiente escolar seja ela de que natureza for, desconectada desse mesmo elemento.

Nesse sentido, proceder analise da cotidianidade não considerando a linguagem seria o mesmo que considerar o homem em suas relações imediatas, submerso em um clima de privação de comunicação, isto é, no mais completo silêncio.

A rigor, pensar dessa forma, e mais ainda, realizar investigação ou formular projetos educativos não considerando a importância da linguagem é uma atitude tão equivocado quanto estudar os homens sem considerar a história e as relações por ele engendradas no interior das sociedades. Equívoco dessa grandeza, não só é preocupante como tem sido praticado com bastante freqüência nas ciências sociais.

Buscando escapar dessas tentações, bem como dos procedimentos que atomizam os homens e mulheres em suas relações sócio-históricas, defendemos a necessidade da interconexão dos estudos do cotidiano escolar de matriz marxista com os estudos de educação-lingüística, uma vez que acreditamos na complementaridade dessas duas formas de abordagens do social.

O que estou argüindo é que ao considerar que os homens fazem a história a partir de suas redes de relações construídas na cotidianidade, admite-se que a fazem com o auxílio da linguagem. Isto porque, como bem nos ensina Gerald (2003)(4) “não só a linguagem se constitui pelo trabalho dos sujeitos; também estes se constituem pelo trabalho lingüístico, participando de processos interacionais” (p-51).

Não precisamos realizar reflexões homéricas para percebermos a força que a linguagem exerce sobre a cotidianidade dos indivíduos, basta pensarmos no indivíduo, que ao se encontra imerso em sua cotidianidade, atribui seu sucesso ou insucesso em uma disputa por um emprego, ou mesmo sua não aprovação em um concurso vestibular, ao fato de não dominar uma variedade da língua. Refletir sobre tais fatos, nos levará a entender o quanto a transmissão de ideologias tem na linguagem um instrumento eficiente de controle (respeitado os limites) da cotidianidade.

Este é apenas um caso, mas poderíamos pensar em outros, por exemplo, quem nunca ouviu dizer que fulano não passou em uma entrevista para um emprego por que não sabe conversar direito ou de que beltrano foi motivo de gozações por que fala bicicreta, estrombo, pobrema, etc. Lembremos ainda do ex-ministro que inventou o imexível, quanta humilhação passou!?

Essas são algumas demonstrações, mas certamente muitos outros ocorrem na cotidianidade e, portanto, são merecedoras de atenção por parte dos estudiosos comprometidos com a produção de uma sociedade de homens e mulheres emancipadas.

É bom destacar, que a percepção dessas questões não constitui uma tarefa fácil, uma vez que esta exige um exercício de suspensão da cotidianidade e consequentemente uma ruptura com a cultura do certo e do errado no uso da língua. Como este trata-se de um processo de introspecção que decorre de assimilação histórica, nos momentos de suspensão da cotidianidade é comum a não suspensão da cotidianidade da linguagem, isto é, não realizamos reflexões metalingüísticas críticas da linguagem cotidiana e nem da linguagem em seu sentido mais amplo. Talvez por esse motivo, o máximo que se consegui avançar nessa questão, mas não sem resistência, foi ao limite do reconhecimento da existência da variedade lingüística, que mesmo aceita por certos seguimentos, sendo o caso da comunidade científica, encontra-se relegada a uma abstração teórica respeitada de fato apenas nos discursos acadêmicos.

Tal referência se faz necessária, por acreditarmos que a linguagem está tão imbricada no cotidiano dos indivíduos quanto às necessidades mais elementares dos mesmos. Ela é a própria expressão da cotidianidade.

Quando fazemos referência a essa questão, não estamos falando de um fenômeno excepcional, mas tentando mostrar que se por conta de certas determinações da cotidianidade, o indivíduo só se percebe como ser singular, pois, a dimensão genérica (a referência à pertinência ao humano-genérico) está subsumida, na vida cotidiana e na dimensão da singularidade (Netto 2000)(5), tal submissão muitas vezes se realiza através da linguagem.

Agnes Heller (2000)(6) nos ensina que “o homem, enquanto ser humano-genérico, não pode conhecer e reconhecer adequadamente o mundo a não ser no espelho dos demais” (p-84), e essa percepção do outro por certo, só pode ser alcançada através da linguagem, uma vez que a linguagem, sendo um processo social é possuidora de uma dimensão individual e coletiva, funcionando geralmente como um painel capaz de refletir a própria realidade.

A linguagem tem a capacidade de ser um espelho refletor das transformações e contradições inerentes à sociedade como um todo.

Acerca desse caráter representativo que apresenta a linguagem, Bakhtin (2004)(7) comenta: “a palavra penetra literalmente em todas as relações entre indivíduos, nas relações de colaboração, nas de base ideológica, nos encontros fortuitos da vida cotidiana, nas relações de caráter político, etc. As palavras são tecidas a partir de uma multidão de fios ideológicos e servem de trama a todas as relações sociais em todos os domínios. É portanto claro que a palavra será sempre o indicador mais sensível de todas as transformações sociais, mesmo daqueles que apenas despontam, que ainda não tomaram forma, que ainda não abriram caminho para sistemas ideológicos estruturados e bem formados” ( p-41) .

Não por acaso, através da linguagem muitas formas de dominação se impõem. Para um exercício rápido, pensemos no uso da linguagem por parte do Estado em suas múltiplas formas de representação, sendo o caso das linguagens codificadas presente nos documentos jurídicos; pensemos ainda nas produções discursivas dos economistas oficiais que excluem grande parte da população que não domina código lingüístico por eles usado.

Resistir a esse tipo de exclusão é um exercício solitário e angustiante. Convencer, então, que um projeto de sociedade democrática perpassa pela superação de tal forma de exclusão, é uma tarefa mais solitária ainda.

Mesmo não sendo uma tarefa fácil, insistimos na necessidade de se deitar olhares mais atento para essa questão no quadro dos estudos educacionais. Nesse sentido, um passo inicial que pode ser dado nessa direção, consiste em compreender a linguagem enquanto produto e produção da história que tem na cotidianidade uma forma de expressão.

Para tanto, é preciso compreender que nenhum projeto de emancipação social será menos prejudicial aos excluídos, se insistir na manutenção da suposta superioridade de uma variedade lingüística sobre outras. Exatamente pelo fato de que a idéia de superioridade e de uma variedade lingüística sobre outras, resulta do antagonismo histórico das classes. Desta forma não faz sentido que um projeto político educativo empenhado na emancipação humana que defenda a manutenção de uma variedade lingüística elitista.

Da mesma forma que o capital tenta se espraia pela vida cotidiana divulgando e criando uma imagem feitichizada do mercado, que entre outras coisas busca transformar os diferentes em iguais apenas para o consumo, o Estado assume a missão de impor a variedade lingüística das elites às classes trabalhadoras. E uma forma eficiente de fazer isso é criando a idéia da chamada língua oficial; língua nacional; língua-padrão; língua culta ou língua de prestígio.

A imposição de uma variedade lingüística de “prestigio” sobre outras variedades, geralmente ocorre em momentos de colonização ou nos momentos de ascensão de determinados grupos, como bem observou Bourdieu (1998)(8) no caso da França pós-revolução. Isso se deve (como bem nos lembra Bourdieu) ao fato de que “jamais se deveria esquecer que a língua, em razão da infinita capacidade geradora, mas também, originária, no sentido kantiano, que lhe é conferida por seu poder de reproduzir para a existência produzindo a representação coletivamente reconhecida, e assim realizada, da existência, é com certeza o suporte por excelência do sonho do poder absoluto” (p -28).

Nesse ponto de nossa reflexão, podemos dizer que temos a convicção de que a linguagem, enquanto processo social, merece maior atenção na teoria do cotidiano e nas abordagens dos processos escolares, ressalvando que deve ser tratada como inerente à individualidade dos sujeitos e, portanto,como manifestação legítima da cultura dos grupos e comunidades.

Em função disso uma possibilidade de consideração da linguagem dentro dos estudos do cotidiano, talvez esteja na percepção de que ela enquanto fio condutor das relações social está presente em todas as esferas da cotidianidade dos indivíduos, e que a construção e percepção do homem enquanto ser genérico não se realiza sem a linguagem.

Para nós que acreditamos na possibilidade de construção de uma utopia coletiva, entendemos que enquanto nossos sonhos estiverem submetidos a uma leitura da realidade a partir da variação lingüística imposta pelos dominadores, estaremos sempre coagidos por um espectro que cotidianamente nos devora e conspira para a manutenção do homem em-si.

Com o cuidado de não atribuir á linguagem poderes excepcionais, prudente seria que considerássemos que da mesma forma que o cotidiano não se desloca do histórico – antes, é um dos seus níveis constitutivos (Netto, 2000.p-66), ela, a linguagem, também não se descola do cotidiano e nem da história, pois é uma síntese de todas as objetivações cotidianas dos sujeitos em suas múltiplas relações sociais; e ainda, é através dela que ocorrem os processos de explicação e constituição do cotidiano e das relações dos sujeitos entre si.

Segundo momento: Quais os limites de um projeto pedagógico histórico-social empenhado na emancipação dos trabalhadores, que não considera a variação lingüística (aspecto inerente à individualidade do homem singular) em sua formulação?

De um modo geral já mencionamos acima algumas limitações impostas a um projeto que se pretende de emancipação que não considera a variedade lingüística, contudo vale destacar outros elementos que julgamos relevantes.

Não é novidade que as formas de dominação nas sociedades de classes são várias e perversas. Carvalho (2000)(9) nos mostra, por exemplo, que há um esforço concentrado pelo capital para invadir e controlar nossa cotidianidade, seja através dos apelos da moda fútil; o consumismo desnecessário; o controle de comportamentos; o fetiche do mercado ou mesmo através da construção e manipulação dos sonhos e da subjetividade dos indivíduos. Esses elementos conjugados invadem nossa cotidianidade com uma velocidade e com tamanha truculência que não temos tempo de ativar nossas defesas com o máximo de eficiência.

E pense você, isso tudo acontece na maioria das vezes através do uso de uma forma de linguagem. E como bem nos lembra Netto (2000) “a organização capitalista da vida social não invade e ocupa todos os espaços da existência individual, como ocorre nos períodos de emergência e consolidação do capitalismo (...) ao indivíduo sempre resta um campo de manobra ou jogo, onde ele pode exercitar minimamente a sua autonomia e o seu poder de decisão, onde lhe é acessível um âmbito de retotalização humana que compensa e reduz as mutilações e o prosaísmo da divisão do trabalho, do automatismo que ela exige e impõe, etc.” (p-86).

Dessa forma, é através dessa senda, apontada por Netto (2000), não controlada pelo capital, que podemos construir pontes capazes de nos conduzir a um terreno fértil sobre o qual edificaremos a sociedade democrática sonhada. Mas essa construção torna-se difícil, se não for considerado o fato de que esse portal está sendo erguido sobre uma base corroída pelo preconceito, pela violência.

Atentemo-nos para o que nos ensina Heller (2000), quando diz que: “também o genérico está ‘contido’ em todo homem e, mais precisamente, em toda atividade que tenha caráter genérico, embora seus motivos sejam particulares” (p-21). Não há duvidas de que a linguagem é uma atividade genérica do homem. É ela que dá sentido as relações em sociedade ao articular o individual e o genérico.

É através da linguagem que os indivíduos se reconhecem como pertencentes a uma comunidade, a uma classe, a uma espécie. É também através dela que o momento catártico ocorre, quando então ”o homem torna-se consciente do humano-genérico de sua individualidade” (Heller, 2000.p-26).

A linguagem ao se manifestar em sua dimensão simbólica muitas vezes pode escamotear o que está subjacente aos atos de comunicação. Desta forma o prudente é não esquecer que quando da idealização e realização dos projetos educativos para seguimentos possuidores de variedade lingüística própria a variedade utilizada na viabilização do projeto deve ser a do próprio.

Nesse sentido, depreende-se que a passagem do homem inteiro para o inteiramente homem mantém intima relação com o reconhecimento de sua individualidade e sua generalidade e a linguagem em seu uso imediato e individual (a fala) é uma demonstração dessa especificidade do gênero humano (nenhum homem fala igual a outro homem), porém ao mesmo tempo são pares, pois fazem parte do gênero humano.

O que normalmente ocorre nas sociedades divididas em classes, é que para garantir o domínio da classe que está no poder impõe-se em nome de uma homogeneidade dos diferentes, um modelo de cultura. No caso da linguagem, essa cultura aparece através da imposição de uma variedade lingüística, como bem nos lembra Bourdieu (2004)(10); “a cultura dominante contribui para a integração real da classe dominante (assegurando uma comunicação imediata entre todos os seus membros e distinguindo-os das outras classes); para a integração fictícia da sociedade no seu conjunto, portanto, à desmobilização (falsa consciência) das classes dominadas; para a legitimação da ordem estabelecida por meio do estabelecimento das distinções (hierarquias) e para a legitimação dessas distinções” (p-10).

Sabe-se que ao longo da história um artifício usado para justificar o domínio de grupos sobre outros, foi a invenção e a utilização de mitos. Foi assim, por exemplo, que aconteceu os colonizadores ocidentais no processo de ocupação da América. No caso da linguagem, mais especificamente, da língua, o processo é mais ou menos o mesmo: inventa-se o que Gnerre (1994) denominou de mito de origem, a partir do qual se constrói a idéia de certo e de errado no uso da língua; o bonito e o feio; o que tem cultura e o que não tem cultura; o elegante o não elegante.

Como por si só os mitos não são suficientes para garantir o domínio cultural da classe dominante, no caso da língua, um grupo de juristas da língua, conforme destacou Bourdieu (1998), é acionado e agindo como guardiões ferozes defendem a manutenção e a pureza do código contra os ataques da língua partilhada pelos excluídos dos privilégios econômicos.

Graças ao empenho desses juristas da língua (gramáticos e professores) tem-se a manutenção de um código que acaba sendo um arame farpado poderoso que bloqueia o acesso ao poder (Gnerre, 1994).

Isso nos alerta para fato de que não é suficiente percebermos a linguagem como simples meio de comunicação dos homens, e sim de que ela expressa relações de poder na forma e no conteúdo por ela assumida, os quais por sua vez, não estão separados do poder material ou valor simbólico acumulado pelos agentes (ou pelas instituições) envolvidas nessas relações (Bourdieu, 2004).

Nesse ponto de nossa reflexão nos pare claro que não podemos conceber a língua como um simples veiculo de transmissão de informações, mas também um meio especializado que os indivíduos usam para manter relacionamentos com outros indivíduos. A língua pode exercer influencia sobre a sociedade ou mesmo, incidir sobre a visão de mundo de seus usuários.

É nesse sentido, que temos a convicção de que um projeto de suma importância, sendo o caso do anunciado e proposto por Duarte (2001)(11), não pode desconsiderar em sua formulação e principalmente em sua execução a questão da variação lingüística. Já que estando imbricada nas atividades do cotidiano, a linguagem em sua manifestação imediata compõe a individualidade dos indivíduos.

Duarte (2001.p-35) constata a triste realidade da escassez de reflexão por parte dos educadores quanto ao significado da cotidianidade. De meu lado digo que triste também é a carência da reflexão crítica sobre a linguagem nas teorias do cotidiano e nos projetos educacionais, já que normalmente o que ocorre no espaço escolar é uma submissão à variedade lingüística considerada de prestígio.

Concluímos, portanto, que da mesma forma que a justaposição conflituosa entre o trabalho como work e o trabalho como labour, ambos se alienam (Duarte, 2001) e, portanto, alienam o trabalhador. Desta maneira, a manutenção de uma variedade considerada de prestígio em detrimento das variedades do povo, apresenta a mesma força alienante.

Notas Explicativas
(1) Pesquisa realizada na Universidade de Sorocaba – BRASIL. Financiada pela Fundação FORD.
(2) Carlos Drummond de Andrade, “Aula de Português”, em A palavra mágica. Poesia, Rio de Janeiro, Record, 1997.
(3) Esse fato nos leva a uma outra questão que não pretendemos responder no momento, qual seja: os homens vivem a cotidianidade sem os recursos lingüísticos, quaisquer que sejam eles?
(4) GERALD, João Wanderley. Portos de passagem. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
(5) NETTO, José Paulo. In Cotidiano: conhecimento e crítica. São Paulo, Cortez, 2000.
(6) HELLER, Agnes. O Cotidiano e a História. São Paulo, Paz e Terra, 2000.
(7) BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo, Hucitec, 2004.
(8) BOURDIEU, Pierre. A Economia das trocas lingüísticas. São Paulo. Edusp, 1998.
(9) CARVALHO, Maria do Carmo Brant . In Cotidiano: conhecimento e crítica. São Paulo, Cortez, 2000.
(10) BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. 7ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.
(11) DUARTE, Newton. Educação escolar, teoria do cotidiano e a escola de Vigotski. 3ª ed. Campina, S.P: Autores Associados, 2001.


 
 
 

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