| Joaquim Rafael,
Licenciado em Ensino de História e Geografia pela Universidade
Pedagógica de Maputo, Moçambique, em 2002. Professor de
carreira há 21 anos. Atualmente estudante de pôs - graduação
em Geografia na UNESP, Rio Claro.
Resumo
Neste trabalho foram analisados os projetos ambientais
como instrumentos de gestão ambiental em Moçambique, buscando
uma reflexão histórica da sua evolução e o
seu alcance e eficiência na melhoria da qualidade de vida das populações.
O Banco Mundial, PNUD e outros são agências financiadoras
desses Projectos. Para se alcançarem as metas traçadas na
“cúpula da terra” há que se estabelecerem novas
posturas para com os projetos ambientais visto que a sua acção
não se reflecte na qualidade de vida das populações.
Introdução
O objetivo geral do presente artigo é analítico. Que será
alcançado através da identificação dos reais
problemas, a apreciação critica das políticas públicas,
estratégias e ações direcionadas para as medidas
corretivas dos problemas ambientais em Moçambique, bem como serão
sugeridos procedimentos para a resolução dos mesmos.
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Foto1: A cidade de Maputo |
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Uma justificativa que se pode apontar
que motivou o presente estudo é o debate sobre o alcance das actividades
dos projetos ambientais em Moçambique, porque, não obstante
a sua implementação o meio ambiente se está degradando
cada vez mais e com os processos a tenderem para uma situação
pior.
Uma outra justificativa, para este trabalho, é a pouca preocupação
que a sociedade tem revelado por questões ambientais, que são
relegadas para segundo plano, como se a qualidade da vida das pessoas
fosse um assunto adiável. Assim porque só se tem um leque
de normas e leis potenciais que não produzem por si só nenhuma
mudança no sentido positivo.
Foi procedimento metodológico seguido: a pesquisa bibliográfica
na qual se trabalhou, não só com a documentação
secundária existente sobre o assunto, mas também, com a
legislação ambiental moçambicana.
O trabalho desenvolve-se em torno de grandes eixos como: principais problemas
ambientais em Moçambique, principais causas desses problemas, tipos
de problemas ambientais, gestão de projetos ambientais e sua resposta
à qualidade de vida dos cidadãos, educação
ambiental e algumas considerações finais.
Principais problemas
ambientais em Moçambique
Os problemas ambientais em Moçambique subdividem-se em duas grandes
categorias:
i) Problemas ambientais urbanos e,
ii) Problemas ambientais rurais.
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Foto2: imagen ilustrativas
dos problemas ambientais no Grande Maputo |
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A primeira é que comporta maior
amplitude de problemas ambientais. Assim porque evidencia tanto os decorrentes
da atividade industrial, como os da poluição das águas,
do ar, sonora até à contaminação dos solos
e deslizamento de massas e erosão de solos urbanos como conseqüência
combinada de superpovoamento de áreas declivosas e má gestão
dos mesmos; até aos resultantes da poluição derivada
de deficiente saneamento das águas negras e assoreamento de canais
de drenagem. Como impactos diretos destes fenômenos, ocorrem inundações
urbanas nos períodos chuvosos; a contaminação das
águas subterrâneas, a deficiente recolha processamento e
tratamento do lixo urbano; erosão costeira devida à falta
de manutenção das barreiras de proteção que
têm se desmoronado sistematicamente e criando campo para as águas
destruírem as arribas, atacando por conseguinte, a zona do litoral.
Todavia, os problemas ambientais (ecológicos e sociais) urbanos,
grifos do autor, não atingem igualmente todo o espaço urbano.
Atingem muito mais os espaços físicos de ocupação
das classes sociais menos favorecidas do que os das classes mais elevadas.
A distribuição espacial das primeiras está associada
à desvalorização do espaço, quer pela proximidade
dos leitos de inundações dos rios, das indústrias,
de usinas termonucleares, quer pela insalubridade, tanto pelos riscos
ambientais (suscetibilidade das áreas e das populações
aos fenômenos ambientais) como desmoronamento e erosão, quanto
pelos riscos das prováveis ocorrências de catástrofes
naturais, como terremotos e vulcanismos. (GUERRA & CUNHA, 2004, p.28).
E acrescentam que:
“A suscetibilidade dos solos à erosão correlaciona-se
com as relações sociais de propriedades e com o acesso das
diferentes classes sociais às técnicas de conservação
do solo. Enquanto a classe alta dispõe de grandes áreas
que lhe permitem manter a vegetação e a preservar o solo,
a classe pobre se aglomera e, ao aumentar a densidade populacional, altera
a capacidade de suporte do solo.” Ibidem.
A Política ambiental moçambicana confirma estes fatos nos
seguintes termos:
“A gestão ambiental nas
cidades moçambicanas é particularmente difícil,
em virtude de existirem, paralelamente, dois sistemas sócio –
econômicos com necessidades e interesses por vezes contraditórios,
nomeadamente o sector tradicional, informal rural, por um lado, e o
sector moderno, formal e urbano, por outro(...). Por outro lado, e apesar
de se reconhecer o papel dos cidadãos na resolução
de uma parte destes problemas, o seu envolvimento tem sido bastante
fraco.”( MICOA, 2004, p. 260).
Ora esta constatação revela
uma fraqueza e impotência das entidades políticas perante
o cidadão. A questão é: porque é que os cidadãos
têm tido um envolvimento bastante fraco? Julgamos que este facto
se deve a uma gestão e gerenciamento sócio-ambiental e econômico
de exclusão. Em que se olha o ambiente como paisagem mercadoria,
mercadoria de exploração econômica; e quem procede
a esta exploração não é o cidadão comum.
Este apenas é um mero espectador do processo e não parte
dos problemas e da sua resolução. Pois, só pode ser
assim quando os cidadãos não são ativos e nem pró-ativos,
mas sim passivos e indiferentes. Mas as pessoas devem habitar um espaço
geográfico que conscientemente o assumem. Condições
indispensáveis para ter motivação na preservação
dos recursos naturais e paisagísticas.
Tuan, (1980) corrobora esta opinião ajuntando que:
“Sem a auto-compreensão
não podemos esperar por soluções duradouras para
os problemas ambientais que, fundamentalmente, são problemas
humanos. E os problemas humanos, quer sejam econômicos, políticos
ou sociais, dependem do centro psicológico da motivação,
dos valores e atitudes que dirigem as energias para os objetivos.”(TUAN,
1980, p.1).
Portanto, a gestão dos problemas
ambientais urbanos implica uma construção social em que
o Estado-Governo compartilhe com a sociedade civil as responsabilidades
das decisões e das execuções. (GUERRA & CUNHA,
2004, p.41).
Menezes (1996), debruçando-se sobre os problemas ambientais urbanos
nos países em desenvolvimento alerta que,
Obviamente, a urbanização
não é um mal em si. Como vimos, a questão é
que nos países em vias de desenvolvimento ela se conjuga com
seus altos índices de pobreza. A ocupação de áreas
urbanas ambientalmente mais frágeis (como mangues, várzeas,
fundos de vales, aterros, lixos e áreas de mananciais), aliada
a um aumento descontrolado das atividades comerciais, financeiras e
de construção, é a expressão mais contundente
dos efeitos dessa conjugação (RETTO 1995; HARCLOY e SATTERTTHWAIT
1985; população crisis committee; Martinott 1992 apud
MENEZES, 1996, p.15).
Moçambique segundo as estatísticas
do PNUD, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento,
é dos mais subdesenvolvidos do mundo. Reunindo, portanto, aquelas
características dos problemas ambientais urbanos já descritos
acima, cuja solução está para as futuras gerações.
Há por este fato motivos fortes para a criação e
desenvolvimento do espírito de cidadania e engajamento de todos
no combate aos problemas ambientais no presente em nome do desenvolvimento
sustentável.
Tendo como base a inclusão de
políticas ambientais nos seus programas estratégicos de
governação. Nessas políticas deve estar presente
o incentivo à co-responsabilidade entre os governantes locais
e os diversos sectores da sociedade. O sucesso das políticas
ambientais só poderá ocorrer em um ambiente democrático
e solidário. (MENEZES, 1996, p.15).
Na segunda categoria dos problemas ambientais
em Moçambique, ocorrem principalmente os seguintes: degradação
de solos agrícolas e de povoamento concentrado, desflorestamento.
Mia Couto descrevendo a sua percepção paisagística
das áreas adjacentes ao Parque Nacional de Gorongosa, o maior de
Moçambique, refere que:
“Saio a perder do segundo confronto:
a floresta foi empurrada da paisagem. Restam manchas em regiões
de acesso mais difícil. Não podia ser de outro modo: afinal,
as tais picadas que cruzam a savana foram abertas por madeireiros e
donos de serrações. Foram eles que, há mais de
50 anos, desenharam caminhos para os camiões. Com os madeireiros
vieram os caçadores. E os agricultores expandiram a sua presença,
obrigando a árvore a uma retirada quase irreversível.”
(COUTO, 2004:36).
Em suma, no meio rural, ocorrem problemas
ambientais resultantes da relação difícil entre a
satisfação das necessidades básicas e a proteção
de recursos naturais. Ocorrem estas situações, por exemplo,
nas zonas tampão das áreas de proteção animal
e vegetal - Parques e reservas animais. Justifica esta postura o preâmbulo
do Plano de Gestão e Desenvolvimento do Parque Nacional de Banhine,
em Moçambique, província de Gaza, nos seguintes termos:
Esta primeira versão do plano
de gestão foi solicitada pelo Ministério de Turismo, DNAC,
com orientações claras para a elaboração
de um modelo que considerasse as necessidades da população
a viver dentro e na periferia do Parque, cuja sobrevivência dependesse
dos recursos do Parque, e que, simultaneamente fosse ao encontro dos
objectivos de conservação estabelecidos pelo Governo de
Moçambique. (Ministério de Turismo, 2004, p.7).
Principais causas
dos problemas ambientais em Moçambique
Reconhece-se um complexo de fatores que determinam
as causas dos problemas ambientais em Moçambique, circunscritos
no quadro dos fatores a nível global, como sendo os da dimensão
antropológica e ou sócio – política e econômico-cultural.
Contudo, existem debates abertos na discussão
das reais causas da degradação ambiental em que uns apontam:
“(...) citando
o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente-PNUMA-,
que, grifo nosso, não avança muito em relação
ao Relatório Brundtland, identificando basicamente duas causas
para a crise ambiental: a pobreza e o mau uso da riqueza.”(FLORIANI,
2001, p.57).
Na visão
de Guerra & Cunha, (1996),
portanto, a degradação
ambiental pode ter uma série de causas. No entanto, é
comum colocar-se a responsbilidade no crescimento populacional e, na
consequente pressão que esse crescimento proporciona sobre o
meio físico. Essa é, talvez, uma posição
simplista de que áreas com forte concentração populacional
estejam, necessariamente, sujeitas à degradação.
É claro que essa pode ser uma causa, mas não a única,
nem a principal.
O manejo inadequado do solo, tanto em áreas rurais, como em áreas
urbanas, é a principal causa da degradação (Morgan,
1986; Blaikie e Brookfield, 1987; Gerrard, 1990; Daniels e Hammer, 1992).
Essas áreas estão, portanto, mais sujeitas a sofrer degradação
do que aquelas com grande pressão demográfica, mas que
levem em conta os riscos da natureza. É reconhecido, por outro
lado, que nem sempre isso acontece, pois a simples pressão demográfica,
aliada à necessidade da obtenção de recursos naturais,
pode resultar em processos de degradação.”(GUERRA
& CUNHA, 1996, p.347).
Igualmente chama atenção
para o fato de que:
A ênfase dada em muitos discursos,
inclusive ambientalistas, sobre a importância da responsabilidade
individual e para a necessidade de mudança de comportamento,
desloca e fragiliza a discussão das verdadeiras causas dos problemas
ambientais, escamoteando o modelo de sociedade de consumo vigente, a
tecnologia por ela produzida e as relações de poder existentes,
que provocaram o consequente desequilíbrio na distribuição
de renda e no acesso a bens e serviços. (PHILIPPI Jr. & PELICIONI,2005:8).
Por seu turno, o professor Matus (1996) classificava as causas que contribuíram
para a ocorrência do problema em dois grandes grupos (na perspectiva
da governabilidade do ator): as causas estruturais e as causas conjunturais.
Para Matus (1996), as causas estruturais são aquelas que derivam
das relações sociais, que se estabeleceram ao longo da
história, de uma determinada sociedade. São causas de
natureza política, social, econômica, cultural e religiosa,
as quais geralmente estão presentes na gênese não
apenas de um problema, mas de vários de uma sociedade (...)
As causas conjunturais geralmente se referem às deficiências,
insuficiências ou até mesmo ausência na organização
e funcionamento do(s) sistema(s) no(s) qual (is) o(s) problema(s) está
(ao) sendo processados. São causas relacionadas com as insuficiências
nas dimensões das instalações físicas -
equipamentos, material permanente, material de consumo, recursos humanos
- e na dimensão das relações estabelecidas que
conferem a organização e o funcionamento do sistema. (PHILIPPI
Jr. & PELICIONI,2005, p.630).
De maneira que, as causas dos problemas
ambientais em Moçambique estão relacionadas com a cultura,
a história, a política, a economia dependente, com a distribuição
desigual dos recursos, a pobreza, falta de responsabilização.
Em suma relacionam-se com o atraso econômico do país que,
exacerbou uma concorrência na acumulação de capitais,
no contexto da adopção da economia de mercado a partir de
1987, a brasa onde se queima toda a “Humanidade” do Homem,
matando por isso a ética, a moral e a solidariedade, tão
necessárias para a gestão quer pública como dos projetos
ambientais em particular.
Tipos de gestão
ambiental
EDe acordo com Philippi & Roméro (2004:701), existe
gestão ambiental potencial e gestão ambiental ação.
1. Gestão
ambiental potencial - é a existência de leis, normas, decretos,
regulamentos, escritos dirigidos e determinados com o objetivo de solucionar
as questões do ambiente. Sua mera existência, por si só,
não constitui gestão propriamente dita. Para que realmente
aconteça e se concretize a gestão ambiental, é preciso
que aquela potencialidade se transforme em ação concreta,
deixando de ser apenas leis e normas, surge assim:
2. Gestão ambiental ação
– que é a “gestão ambiental efetiva”,
Seiffert, (2005:23), que se caracteriza pela conversão das leis,
normas, regulamentos sobre a gestão ambiental, em gestos transformadores
resultantes da aplicação daqueles instrumentos. Em suma:
concretizando a mudança do poder ser real para o real.
Portanto, gestão ambiental eficiente corresponde à existência
e utilização de um conjunto de instrumentos. Só será
eficaz, porém, quando esse conjunto se transformar em ações
que se traduzam em problemas resolvidos.
A observação da conduta dos atores perante os problemas
ambientais e a leitura da legislação ambiental moçambicana
mostraram que a resolução dos problemas ambientais através
de cumprimento das políticas respectivas como através gestão
de Projetos ambientais em Moçambique, são ações
do futuro. Pois, no presente, não fazem parte das prioridades em
termos de ação, mas sim em termos formais nos decretos e
nos discursos políticos. O aspecto econômico suplanta questões
técnico-científicas de coerência entre os desejos
e os actos bem como o necessário paralelismo entre o desenvolvimento
econômico e questões ambientais.
Para esta análise, Guerra & Cunha, (1996), justificam esta
conduta ao considerarem que com relação à gestão
de bacias hidrográficas, “essa atuação foi
pouco expressiva devido à falta de agressividade política
dos cientistas e a tendência de evitar conflitos com as questões
discordantes”. (GUERRA & CUNHA, 1996, p.365).
Postura menos ética dos cientistas
porque, enquanto a sociedade se desenvolve em apenas na direção
meramente econômica, privilegiando uns em detrimento da maioria,
não se pode dizer que exista gestão ambiental, mesmo que
em nome desta se elaborem leis e decretos, se produzam normas e estratégias,
ou se estabeleçam diretrizes e políticas. Na verdade,
nada acontece automaticamente apenas com instrumentos de controle ambiental
ou com declaração de princípios. (PHILIPPI Jr.
& ROMÉRO, 2004, p.701).
Tal é o estágio em que
se encontra o processo da gestão ambiental em Moçambique,
como ilustramos acima. Precisando, por conseguinte de uma mudança
de postura e atitudes para o bem coletivo e a criação de
instrumentos adequados para o controle e suster o lado da demanda dos
impactos ambientais.
Para o caso de Moçambique estes instrumentos e princípios
existem. (Vide a tabela 1). O que acontece é que há uma
grande distância entre eles e a prática quotidiana de gestão
ou gerenciamento ambiental efetiva, ou ação participativa
e comprometida, como se ilustrou no capítulo anterior. Situação
que deve ser invertida em nome de qualidade do ambiente que confira boa
qualidade de vida às populações. Mesmo se reconhecendo
que:
“Embora os governos não
deixem totalmente de considerar os problemas ambientais, frequentemente
negligenciam a implementação de medidas reguladoras, compensatórias
e mitigadoras” (PRINCEN et alii, 1994 apud LOPES & FILHO et
al, 2001:297).
Gestão
dos Projetos ambientais em Moçambique e sua resposta à boa
qualidade de vida dos cidadãos
Parte de mecanismos da Gestão Ambiental em
Moçambique é feita por meio de (APAS): Áreas de Proteção
Ambiental. São projetos de grande importância porque preservam
os ecossistemas no seu meio natural.
O fundamento da sua implementação trata-se de assegurar
o controle das áreas de proteção ambiental de maior
valor na gestão ambiental e criação de espaços
turísticos; cujo objetivo a nível de intenção
é disciplinar o processo de ocupação, proteger a
diversidade biológica e assegurar o uso sustentável dos
recursos naturais.
E, segundo Cabral & Souza (2005),
Observando a manutenção
da qualidade dos atributos ambientais que ensejam sua criação
e procurando disciplinar a ação dos agentes econômicos
em locais onde estão envolvidos recursos ambientais importantes,
de propriedade comum ou não. Constituem instrumento institucional
que aponta para a necessidade de reduzir as externalidades negativas
que comprometem a eficiência econômica e o bem-estar da
sociedade, sem que para isso seja necessária a transferência
integral dos direitos de propriedade para o Estado. Como conseqüência
direta da restrição ao uso e à ocupação
do solo, são palco de conflitos no que diz respeito a sua gestão.
(CABRAL & SOUZA, 2005, p.48).
Conflitos que ocorrem
nas reservas e parques moçambicanos. A descrição
do Ministério de Turismo (2003) é concludente sobre este
facto, ao apontar que: As ameaças nos recursos florestais na área
incluem os seguintes aspectos:
- Abate e corte
indiscriminado de florestas costeiras e matas das ilhas para abertura
de novas machambas;
- Queimada anual do mato pelas comunidades locais para desbravar machambas
e caminhos, ou para caça;
-Corte ilegal de madeira por operadores madeireiros. Ministério
de Turismo, (2003, p.15).
O mesmo documento
acrescenta que:
para além
da perda de habitat devido à abertura de machambas, as actividades
humanas têm impacto directo sobre a fauna através da caça.
A caça feita pelo sector familiar só se torna ilícita
quando os animais são vendidos ou quando praticada fora da época.
Os Macondes são caçadores especializados com arco e flecha,
conseguindo mesmo matar elefantes. Armadilhas e laços, também
utilizados pelos Macuas, são de uso generalizado e têm
a desvantagem de não serem selectivos. Eles podem apanhar qualquer
coisa, sem ter em conta se o animal é uma fêmea ou um macho,
adulto ou juvenil, ou mesmo se é comestível ou não.
A caça pelo sector familiar é geralmente dirigida aos
antílopes. (Ministério de Turismo, 2003:16).
Para estes casos,
Cabral aconselha que: “Por permitirem atividades econômicas
em seu interior, deve-se incentivar comportamentos de conservação
dos recursos pelos proprietários das terras em Áreas de
Proteção Ambiental, sejam estes públicos ou privados.”
(CABRAL & SOUZA, 2005, p.48).
Darden et al. (1998), citados por Cabral & Souza (2005), acreditam
que, quando são criadas unidades de conservação,
há conflitos pelo fato de os indivíduos buscarem adquirir
os valores dos recursos naturais para seu próprio benefício.
Os autores salientam que esse é um conflito básico entre
quem ganha o quê, onde e quando em relação aos recursos
ambientais. (CABRAL & SOUZA, 2005, p.49).
Tal só é possível por meio da Educação
Ambiental, porque, tradicionalmente, o Meio Ambiente é percebido
pela sociedade em função de duas grandes vertentes, a saber:
1) O ambiente
visto somente como problema, acompanhado de uma percepção
de controle, fiscalização ou proibição.
2) O ambiente percebido simplesmente como o reflexo das belezas naturais
dos Parques Nacionais e outras paisagens, cenários de certa forma
idílicos e bucólicos, que são sentidos pela população,
como realidades inacessíveis e inatingíveis, distantes
da vida cotidiana da maior parte dos sujeitos sociais. (PHILIPPI, Jr.
& PELICIONI, 2002, p.10).
Portanto, o baixo nível de desenvolvimento
econômico de Moçambique impele as pessoas a uma luta diária
pela sobrevivência sem terem a consciência do risco que os
seus actos representam para o meio circundante, mesmo para as suas próprias
vidas. Assim, esta Educação trará frutos a longo
prazo. Mas é melhor que se comece desde já para, gradualmente
proceder-se à eliminação de actos como:
A caça furtiva comercial é
uma actividade completamente diferente em termos de impactos. Os rinocerontes
foram eliminados da área do Parque através das acções
dos caçadores ilícitos comerciais. Os elefantes e búfalos
foram muito reduzidos, embora ambos estejam agora a recuperar lentamente.
A recuperação do búfalo é um pouco mais
lenta que a do elefante, uma vez que sofre muito maior pressão
da caça. Uma das técnicas preferidas pela caça
furtiva é o encandeamento com luzes de veículos. Poucos
caçadores furtivos têm armas próprias, pois é
difícil obter autorização para propriedade privada
de armas. Ministério de Turismo, (2003:16).
Educação
ambiental como uma das medidas a tomar para subsidiar a gestão
ambiental em Moçambique
Discussões e debates acesos em torno da conceituação
da Educação Ambiental vêm sendo desenvolvidos ao longo
dos meandros acadêmicos e políticos.
Porém, estes fóruns, sobretudo as conferências das
Nações Unidas para o Ambiente alcançaram consensos
assinaláveis quanto ao assunto. Apontando por exemplo, que ela
é entendida como educação política de formação
da cidadania ativa visando uma ação transformacional da
realidade socioambiental. Porque e, segundo Philippi Jr. & Pelicioni
(2005):
Em 1997, na Conferência
Internacional Ambiente e Sociedade: Educação e Sensibilização
do Público para a Sustentabilidade, realizada na Grécia,
foi proposta a reorientação da educação
para a sustentabilidade, declarando que esse conceito deveria abarcar
não só o meio ambiente, como também a pobreza,
a habitação, a saúde, a segurança alimentar,
a democracia, os direitos humanos e a paz, resultando em imperativo
moral e ético, no qual o conhecimento tradicional e as diferenças
culturais deveriam ser respeitados. A educação e a formação
da consciência pública foram consideradas pilares da sustentabilidade
junto com a legislação, a economia, e a tecnologia, implicando
integração de esforços e coordenação
de setores fundamentais, rápidas e radicais mudanças de
condutas e estilo de vida, bem como nos padrões de produção
e consumo.” (PELICIONI 2000 apud PHILIPPI Jr. & PELICIONI,
2005, p.8).
Cavalcante (2002) aponta o caminho a seguir,
os males a serem erradicados e a postura dos atores nos seguintes termos:
Uma política comprometida com
a sustentabilidade que tem que desencorajar aquilo que cause ameaças
à saúde de longo prazo do ecossistema e à base
biofísica da economia, tal como ineficiência, lixo, poluição
throughput, uso excessivo ou garimpagem dos recursos renováveis,
dissipação de recursos esgotáveis etc. Opostamente,
ela tem que impulsionar aquilo que é desejado, como sucede com
renda real, emprego, bem-estar, um ambiente limpo, uma paisagem bela,
segurança pessoal, um uso balanceado dos recursos naturais (incluindo
ar e água) e assim por diante. (CAVALCANTE, 2002:31).
Voltamos a reafirmar que, estas posturas
e atitudes são um imperativo nacional em Moçambique. Devendo,
por isso, todas as políticas governativas comprometerem-se com
estas práticas. Acima de tudo deve existir um mecanismo de controle,
monitoria, inspeção e avaliação responsabilizada
do cumprimento setorial. Pois,
“A desresponsabilização
é um dos estigmas mais graves que pesa sobre nós, africanos
de Norte a Sul. Há os que dizem que se trata de uma herança
da escravatura, desse tempo em que não se era dono de si mesmo.
O patrão, muitas vezes longínquo e invisível, era
responsável pelo nosso destino. Ou pela ausência de destino.
“(COUTO, 2005, p.4).
A governabilidade, referida no triângulo de governo, é
justamente alcançada de forma estratégica, num processo
articulado e desenvolvido por quem governa, para identificar esses atores
e procurar a sustentação de quem apóia o projeto,
a adesão dos indiferentes e o convencimento dos que são
contrários. Ou seja, é um processo de identificação
e superação de conflitos, inevitáveis em processos
sociais, dada a natureza deles. (PHILIPPI, Jr. & PELICIONI, 2005,
p.625).
Portanto, “Educação
Ambiental é um processo de educação política
que possibilita a aquisição de conhecimentos e habilidades,
bem como a formação de atitudes que se transformam necessariamente
em prática de cidadania que garantem uma sociedade sustentável”.
PHILIPPI Jr. & PELICIONI, (2005, p.3).
Em conclusão, sente-se que é imperiosa uma Educação
Ambiental que, “deve ser permanente e estar em todos os níveis
formais e não formais do ensino. Todos têm direito à
Educação Ambiental.” PHILIPPI Jr. & PELICIONI,
(2005, p.742).
Por outro lado a ação multidisciplinar e integrativa é
fundamental. Ela decorre do contexto das deliberações universais,
preconizadas na agenda 21 Global, que determina em seus artigos algumas
atribuições, a saber:
I. - Ao poder público:
-definir políticas públicas que incorporem a dimensão
ambiental;
-promover a Educação Ambiental em todos os níveis
de ensino e engajamento da sociedade na conservação, recuperação
e melhoria do Meio Ambiente. (PHILIPPI, Jr. & PELICIONI, 2005, p.742).
II. Às instituições Educativas:
-promover a Educação Ambiental de forma integrada aos programas
educacionais que desenvolvem. Philippi Jr. & Pelicioni (2005, p.742).
III – Aos Meios de Comunicação
de Massa
-colaborar de maneira ativa e permanente na disseminação
de informações e práticas educativas sobre Meio Ambiente
e incorporar a dimensão ambiental e sua programação.
IV - Às empresas, entidades de classe,
instituições públicas e privadas.
-promover programas destinados à capacitação dos
trabalhadores visando à melhoria e ao controle efetivo sobre o
meio ambiente de trabalho e sobre as repercussões do processo produtivo
no Meio Ambiente;
V - À sociedade como um todo
-manter atenção permanente à formação
de valores, atitudes e habilidades que propiciem a atuação
individual e coletiva voltada para a prevenção, identificação
e a solução de problemas ambientais. Philippi Jr. &
Pelicioni (2005:743). Porque “A maior parte da sustentabilidade
ambiental será alcançada na medida em que o mundo atingir
a transição para a energia renovável, e para uma
população estável”. (CAVALCANTE, 2002, p.272).
Algumas considerações
finais
A análise da implementação e gestão de Projetos
ambientais em Moçambique permitiu constatar que ela é ainda
um desafio de gerações visto requerer a mudança de
atitude e do comportamento por parte da sociedade.
O estudo constatou que nas zonas urbanas, áreas de riscos potenciais
ambientais são ocupadas por populações menos favorecidas,
por isso, vulneráveis aos impactos ambientais. Igualmente, nas
zonas rurais, a erosão grave sobre as terras agrícolas,
o desmatamento, a caça furtiva em áreas de proteção
dos ecossistemas são uma realidade, de cujas causas se prendem
com factores estruturais e conjunturais, ou seja, derivam da pobreza,
mau uso do solo e má gestão dos recursos alocados neste
processo. A corrupção, entre outras, estão na origem
desta situação. Por estes factos, combatem-se insatisfatoriamente
estes males. Pois o que existe em termos de normas e leis constitui uma
gestão ambiental potencial e não acção ou
efetiva que seria ideal.
A solução para esta constatação passa pela
adopção de uma educação ambiental multifacetada
a todos os segmentos sociais.
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