| Isabel, Mestranda
do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental
da Universidade Federal Fluminense e Bolsista do Programa Internacional
de Bolsas de Pós-Graduação da Fundação
Ford.
O presente texto faz parte da nossa dissertação de mestrado,
atualmente em andamento. Orientação: Prof. Dr. Emilio Maciel
Eigenheer.
Resumo
A sociedade contemporânea tem se deparado com um problema ambiental
de grandes proporções e que se avoluma a cada dia. Além
da quantidade de resíduos sólidos gerada, existe mais um
agravante ao problema que é a diversidade dos resíduos existentes.
A complexidade existente em todo o processo de gerenciamento que vai da
coleta ao destino final dos resíduos sólidos tem causado
problemas de ordem social (associado à pobreza) e ambiental (contaminação
do solo, do ar e dá água), com reflexos econômicos
(externalidades negativas) para a sociedade em geral. Dentro do contexto
da gestão de resíduos, que abrange problemas com relação
a investimentos, custos operacionais, degradação ambiental
e falta de capacitação técnica, nos deparamos com
um problema social que se avoluma nas mesmas proporções
dos resíduos, ou seja, a existência de catadores de lixo.
Dada a exigüidade de espaço, abordaremos o tema em função
da relevância da participação desses recicladores
dentro da cadeia de produção, dificuldades existentes frente
à sua organização e perspectivas para o futuro. Nesse
contexto, nosso objetivo é discutir uma gestão de resíduos
sólidos, onde o aspecto social seja estimulado a uma articulação
entre geradores, gestores e catadores.
Introdução
A sociedade contemporânea tem se deparado com um problema ambiental
de grandes proporções e que se avoluma a cada dia. Além
da quantidade de resíduos sólidos gerada, existe mais um
agravante ao problema que é a diversidade dos resíduos existentes.
A complexidade existente em todo o processo de gerenciamento que vai da
coleta ao destino final dos resíduos sólidos tem causado
problemas de ordem social (associado à pobreza) e ambiental (contaminação
do solo, do ar e dá água), com reflexos econômicos
(externalidades negativas) para a sociedade em geral.
A gestão dos resíduos sólidos em suma é de
competência municipal, cabendo ao município definir sua própria
regulamentação para coleta e destinação final.
Dentre as várias formas de tratamento e destino final do lixo,
temos: aterros sanitários, incineração, reciclagem,
compostagem, aterros controlados e vazadouros a céu aberto, popularmente
conhecidos como lixões (D’ALMEIDA & VILHENA, 2000). Entretanto,
qualquer tecnologia usada no tratamento ou no destino final do lixo requer
investimentos com altos custos operacionais. A escolha do tipo adequado
de tratamento ou destinação final de resíduos sólidos
deve levar em conta os custos implícitos no processo de tratamento
e as especificidades locais. Por se tratar de um problema estrutural de
ordem local, equacionar os problemas causados pela degradação
ambiental proveniente da complexa gestão de resíduos sólidos
tem sido o maior desafio para os gestores municipais.
Dentro do contexto da gestão de resíduos, que abrange problemas
com relação a investimentos, custos operacionais, degradação
ambiental e falta de capacitação técnica, nos deparamos
com um problema social que se avoluma nas mesmas proporções
dos resíduos, ou seja, a existência de catadores de lixo.
Alguns especialistas acreditam que, dada a pobreza que envolve essas pessoas,
existe uma grande dificuldade na organização, conscientização
e participação ativa desses trabalhadores na busca de melhores
condições de trabalho e inclusão social. Dada a exigüidade
de espaço, abordaremos o tema em função da relevância
da participação desses recicladores dentro da cadeia de
produção, dificuldades existentes frente à sua organização
e perspectivas para o futuro.
A importância
dos Catadores no Plano de Gestão de Resíduos
Ao longo de décadas a existência de catadores de sucata foi
uma variável constante no Brasil. Trabalhando de forma, muitas
vezes anônima, sua atuação é de suma importância
na garantia de melhores condições ambientais do planeta,
uma vez que sua atividade parte do princípio da reciclagem e introdução
de matérias descartados na cadeia de produção. Além
de garantir o sustento de famílias inteiras, a tarefa dos recicladores
reduz o uso de recursos naturais e diminui custos de produção
das unidades produtivas. Até hoje, a existência de catadores
se configura como uma alternativa à sobrevivência de excluídos
na sociedade, uma vez que o IBGE (2000) aponta um alto índice de
pobreza e analfabetismo dentre eles (Figura 1). Entretanto, isso não
significa dizer que o perfil de catadores seja de extrema pobreza e ignorância,
haja vista que a função de catador tem sido usada como alternativa
ao alto índice de desemprego no país.
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Figura 1:
Catadores de materiais recicláveis. Município de Escada
- Pernambuco 2005 |
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Desta forma, a inclusão desta parcela
da população economicamente ativa dentro do contexto da
gestão integrada de resíduos sólidos é fundamental
para o desenvolvimento de políticas públicas e estratégias
de desenvolvimento urbano. Cabe ao gestor municipal pensar uma gestão
integrada que compreenda a participação efetiva dos catadores
existentes nos municípios, haja vista que o IBGE (2000) aponta
um relativo crescimento desses trabalhadores, considerando que já
são 1% da população economicamente ativa do país
se incluídos os catadores de rua e de latinhas.
Entende-se por gestão de resíduos, a aplicação
de políticas que englobem o gerenciamento desde a coleta até
a destinação final, incluindo os aspectos ambientais, econômicos
e sociais, assim como na articulação dos atores sociais
envolvidos (MMA, 2005). Por essa ótica, é importante ressaltar
que a existência de uma política nacional que defina papéis
através de legislação ambiental específica
é de extrema relevância. Nesse contexto, é nosso objetivo
discutir uma gestão de resíduos sólidos, onde o aspecto
social seja estimulado a uma articulação entre geradores,
gestores e catadores.
Segundo D’ALMEIDA & VILHENA (2000) a inclusão dos catadores
dentro do sistema de gestão municipal torna-se um desafio, visto
que existe uma dificuldade de articulação e organização
desses trabalhadores. Embora exista em várias cidades a atuação
de cooperativas e associações de catadores, esta se configura
como uma realidade principalmente nos grandes centros urbanos, e são
mais atuantes nas regiões Sul e Sudeste do país como Rio
de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Belo Horizonte.
Para GONÇALVES (2003), a organização desses trabalhadores
em cooperativas e associações, através de articulações
entre essas organizações em conjunto com o poder público
vem conseguindo o seu reconhecimento como uma atividade profissional reconhecida
pelo Ministério do Trabalho e Emprego. A inclusão da atividade
de Catador de Material Reciclável dentro da Classificação
Brasileira de Ocupações (CBO) em 2000 é descrita
da seguinte maneira: “Catadores de material Reciclável catam,
selecionam e vendem materiais recicláveis; profissionais que se
organizam de forma autônoma ou em cooperativas/ associações
com diretoria e gestão própria”.
Desta forma, FADINE & FADINE (2001) afirmam que a partir da organização
funcional dos catadores surge a possibilidade desses viverem do lixo e
não no lixo de forma digna e com condições de atuarem
no mercado não apenas como coletores, mas também como co-responsáveis
por toda logística da reciclagem.
Com a mudança do paradigma de que os catadores eram considerados
apenas como pessoas marginais da sociedade, na qual começaram a
perceber a importância do trabalho realizado como reciclador, surge
à necessidade de uma melhor articulação do desenvolvimento
de políticas públicas e busca da cidadania.
Reciclagem no Brasil
FADINE & FADINE (2001) definem a reciclagem como o resultado de uma
série de atividades através das quais os materiais recicláveis
se tornariam lixo, caso não fossem reaproveitados. Com o trabalho
dos catadores, os recicláveis são desviados, coletados,
separados e processados para uso como matéria-prima na manufatura
de bens, feitos anteriormente apenas com matéria-prima virgem (Figura
2).
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Figura 2:
Materiais recicláveis coletados no lixão. |
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Entretanto, a reciclagem não pode
ser vista como a solução ao problema dos resíduos
gerados, uma vez que deve ser compreendida apenas como uma atividade econômica
dentre outras existentes, devendo ser encarada como um elemento dentro
de um conjunto de ações estabelecidas por um Plano de Gerenciamento
Integrado de Resíduos Sólidos Urbanos.
Este plano de gerenciamento deve compreender todas as etapas de manejo
de resíduos sólidos segundo os parâmetros de proteção
ambiental e da saúde pública estabelecidos em lei, uma vez
que a gestão de resíduos é problema de ordem local
cabendo aos municípios estabelecer regulamentos, já que
a eles compete planejar, desenvolver, regulamentar, fiscalizar, executar,
manter e operar os serviços de limpeza urbana (IRIGARAY, 2002).
A lei nº 2.312/54 estabelece o seguinte: “A coleta, o transporte
e o destino final do lixo deverão processar-se em condições
que não tragam inconvenientes à saúde e ao bem-estar
público, nos termos da regulamentação a ser baixada
(Art. 12)”.
Contudo, o Brasil apresenta uma realidade diferente do que é estabelecido
em lei quando as estatísticas do IBGE apontam um alto índice
de resíduos sólidos com destino final em vazadouros a céu
aberto, conhecidos popularmente como lixões. Segundo a Pesquisa
Nacional de Saneamento Básico do IBGE (2002), são coletados
diariamente cerca de 228.413,0 toneladas de resíduos sólidos
domiciliares. A destinação desses resíduos é
dada conforme tabela 1 abaixo:
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Tabela 1:
Destinação final de resíduos sólidos
no Brasil. |
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Esta pesquisa parece
mostrar que houve um avanço significativo na disposição
final de resíduos sólidos brasileiros; entretanto, não
é um dado animador se levarmos em consideração o
conceito de aterro controlado dado por D’ALMEIDA & VILHENA (2000):
Aterro Controlado: é uma técnica
de disposição final de resíduos sólidos
municipais no solo, sem causar danos ou riscos à saúde
pública e à sua segurança, minimizando os impactos
ambientais. Esta forma de disposição produz poluição,
porém localizada, pois similarmente ao aterro sanitário,
a área de disposição é minimizada. Geralmente,
não dispõe de impermeabilização de base,
nem sistema de tratamento do chorume ou do biogás gerado (IPT/CEMPRE,
2000:251).
Como o lixão é caracterizado
pela descarga de resíduos sólidos no solo, sem nenhum tipo
de tratamento, não se percebe muita diferença entre aterros
controlados e lixões, por causarem problemas ambientais como a
contaminação do solo, da água e do ar. Desta forma,
pode-se concluir que mais de 50% dos resíduos sólidos brasileiros
não tem destinação final adequada e eficiente, o
que contribui para a redução da vida útil desses
espaços e a não reutilização de materiais
passíveis de reciclagem, já que menos de 1% desse material
é reaproveitado nas atividades econômicas.
Os dados acima reforçam a suposição da falta de planejamento
inerente às questões do tratamento dos resíduos sólidos,
assim como a falta de legislação específica para
a sua regulamentação, fiscalização e financiamento.
A inexistência de uma legislação compromete a capacidade
de escolha de tecnologias apropriadas que levem em conta as características
do município e sua capacidade de pagamento, colocando no poder
público local a responsabilidade quanto à repercussão
das decisões tomadas no futuro.
Infelizmente, em se tratando de resíduos sólidos, seu gerenciamento
custa dinheiro. Se grande percentual do orçamento municipal for
utilizado para tornar eficiente o tratamento e o destino final dos resíduos
sólidos, outros fatores importantes como educação
e saúde podem deixar de ser prioridade. Isto indica que grande
parte das cidades brasileiras é eficiente apenas na coleta e não
na destinação final de seus resíduos. Tal fato é
fundamentado nos dados do IBGE (2002) que indicam que 63,6 % do total
dos municípios do país usam o lixão como destino
final dos resíduos de sua jurisdição.
Tais dados também são fortes indicadores de que nos municípios
onde não existe um plano de manejo no destino final de resíduos
sólidos urbanos, não existe uma política voltada
para os catadores da cidade. Conseqüentemente, esses catadores tornam-se
pessoas marginalizadas que vivem no lixo e do lixo, sem expectativas de
melhorias futuras.
Contudo, apesar de grande parte dos catadores viverem à margem
da dignidade, a publicação editada pelo UNICEF em Parceria
com a Caixa Econômica Federal “Do Lixo à Cidadania”
em 2001, apontou que, dentre os resíduos encaminhados para a reciclagem,
cerca de 10 a 20% desse total de resíduos urbanos foram coletados
pelos recicladores.
Esse dado é de suma importância no que diz respeito à
inclusão dessa massa de trabalhadores em qualquer plano de gerenciamento
municipal de resíduos.
Inclusão
Social: Dificuldades e Perspectivas
Segundo o IBGE (2002), existem 451 municípios que dispõem
do serviço de coleta seletiva. Entretanto, a pesquisa não
especifica a forma que é utilizada e qual a abrangência do
sistema, não correlacionando a existência da coleta seletiva
à inclusão dos catadores dentro do manejo.
Outra dificuldade é com relação à presença
de crianças e adolescentes em lixões, sujeitas a vários
riscos, como doenças e acidentes com materiais perfurocortantes.
O reconhecimento da existência de cerca de 45 mil crianças
e adolescentes vivendo dos lixões e nos lixões (UNICEF,
2001) mobilizou entidades sociais e o poder público no enfrentamento
do problema.
Esta iniciativa condicionou na busca de alternativas de acordo com as
especificidades de cada região do país como o objetivo de
erradicar o trabalho infantil, inclusão escolar, resgate da cidadania
e gestão integrada de resíduos sólidos. Destes objetivos
nasceram a Campanha Criança no Lixo Nunca Mais, o Programa Nacional
Lixo e Cidadania e a criação de Fóruns Nacionais,
Estaduais e Municipais Lixo e Cidadania.
A partir de tais iniciativas, no que se refere a sustentabilidade social
dos sistemas de gestão de resíduos, cabe aos gestores municipais
a incorporação dos catadores nas atividades econômicas
do sistema público de reaproveitamento de resíduos. Segundo
GRIMBERG (2004), a valorização dos catadores como instrumentos
participativos de gestão, pressupõe mudanças de rotinas
e hábitos que são gradativos para que o processo de integração
à cidadania seja sustentável no longo prazo.
Para GONÇALVES (2003), a partir da organização dos
catadores em associações e cooperativas surgiu uma demanda
para a consolidação dos seus direitos de cidadãos
recicladores em legislações específicas. Isto se
deu a partir do I Encontro Nacional de Catadores realizado em Brasília
no ano de 2001. Com participação de catadores de 17 estados
brasileiros, os participantes do evento reivindicaram além do reconhecimento
legal da profissão, inclusão nos programas de coleta seletiva
municipais, linhas de financiamento e a criação de mecanismos
tributários para o incentivo da reciclagem no país.
Este compromisso em prol da organização dos catadores também
foi reafirmado no I Congresso Latino-Americano de Catadores ocorrido em
Caxias do Sul – RS no ano de 2003, no qual a inclusão e a
mobilização foram os principais compromissos assumidos.
No entanto, mais importante que a organização em associações
e cooperativas, é garantir a autogestão e auto-suficiência
de tais organizações, cabendo às cooperativas o objetivo
permanente de capacitar seus cooperativados. Apesar das imensas dificuldades,
principalmente a de mobilizar e organizar os catadores, o primeiro passo
já foi dado no sentido de garantir a esses trabalhadores a inclusão
social nas atividades desenvolvidas por eles, assim como o reconhecimento
não apenas da atividade como profissão, mas também
da importância dessas atividades de reciclagem no âmbito da
sustentabilidade ambiental e social.
Conclusões
A gestão eficiente e integrada dos resíduos sólidos
tornou-se urgente e necessária diante da atual quantidade e diversidade
de resíduos gerados atualmente. Encontrar soluções
ambientalmente sustentáveis, socialmente justas e economicamente
viáveis tem se transformado num desafio para os gestores municipais.
A inexistência de uma legislação específica
compromete a capacidade de escolha de tecnologias apropriadas e técnicas
de manejo, a exemplo da reciclagem através da coleta seletiva,
que levem em conta as características do município e sua
capacidade de pagamento, assim como a não inclusão social
dos catadores no sistema de gestão municipal.
Embora o país esteja passando por um processo de instituição
e articulação de associações e cooperativas,
não se encontram dados a respeito da autogestão de tais
organizações, principalmente a respeito da auto-suficiência
financeira e capacitação técnica dos cooperativados.
A preocupação maior é não ter dados que comprovem
a sobrevivência dessas organizações sem a participação
de subsídios de ONG’s e do poder público. A ausência
de tais dados pode comprometer e falsear a realidade, que estatisticamente
indica que houve um avanço no setor.
Outro fator fundamental na articulação do sistema de gestão
de resíduos e no fortalecimento das práticas referentes
à reciclagem é a não fragmentação das
ações realizadas, devendo estabelecer diretrizes que levem
a uma articulação entre os geradores, gestores, consumidores
e catadores.
Apesar das dificuldades encontradas, os dados apontam que houve um avanço
no setor e que algumas iniciativas começam a ter êxito em
suas atividades, principalmente a partir da institucionalização
da atividade como profissão definida e acobertada pelo Ministério
do Trabalho e Emprego. Portanto, para aqueles que acreditam que os catadores
continuam vivendo apenas no lixo e não do lixo, é importante
rever suas concepções, haja vista o grau de articulação,
conhecimento e mobilização em que se encontram.
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